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História dos Serviços Assistidos por Animais

Embora o termo Serviços Assistidos por Animais (SAA) seja recente, a relação entre animais e cuidado humano atravessa séculos.

Ao longo do tempo, diferentes experiências começaram a incorporar animais em contextos de saúde, educação e suporte. Mais tarde, pesquisadores e organizações passaram a estudar e estruturar essas práticas, contribuindo para o desenvolvimento de protocolos, terminologias e evidências científicas.

Conheça alguns dos principais marcos dessa história.

Antiguidade — cerca de 400 a.C.

Os primeiros relatos

Referências históricas associam a equitação e o contato com cavalos à promoção da saúde desde a Antiguidade, incluindo relatos atribuídos ao médico grego Hipócrates.

Esses registros são muito anteriores ao surgimento dos SAA como campo estruturado e devem ser entendidos como antecedentes históricos da relação entre animais, saúde e bem-estar.

Século IX

Gheel, Bélgica

A cidade de Gheel (atual Geel), na Bélgica, tornou-se conhecida por uma tradição comunitária de acolhimento de pessoas com transtornos mentais, frequentemente mencionada na história das abordagens humanizadas de cuidado.

Alguns relatos sobre a história das práticas assistidas por animais associam Gheel também à convivência dos pacientes com animais.

1792

York Retreat, Inglaterra

No final do século XVIII, o York Retreat, na Inglaterra, tornou-se uma referência em uma abordagem mais humanizada para o cuidado de pessoas com transtornos mentais.

A instituição incorporava atividades, contato com a natureza e convivência com animais ao cotidiano dos pacientes, sendo frequentemente citada entre os antecedentes históricos das práticas que posteriormente dariam origem aos SAA.

1860

Florence Nightingale e a companhia dos animais

Em Notes on Nursing, a enfermeira britânica Florence Nightingale registrou observações sobre o valor da companhia de pequenos animais para pessoas em situação de doença prolongada.

A ideia de que a presença de um animal poderia contribuir para a experiência de cuidado e bem-estar começava, assim, a aparecer também na literatura de enfermagem.

1919

Animais em instituições de saúde

No início do século XX, surgem registros da presença de animais em instituições de saúde mental nos Estados Unidos, entre elas o St. Elizabeths Hospital, em Washington, D.C.

Essas experiências fazem parte de um período em que o contato com animais começa a aparecer de maneira mais recorrente em relatos ligados ao cuidado institucional.

Anos 1940

Animais em programas de recuperação

Durante a década de 1940, também aparecem relatos do uso de animais em programas de recuperação e reabilitação de militares convalescentes nos Estados Unidos.

Atividades envolvendo o cuidado de animais e o trabalho em ambientes rurais passaram a integrar algumas dessas experiências, antecipando práticas que posteriormente seriam estudadas de forma mais sistemática.

Anos 1950

Nise da Silveira e o pioneirismo brasileiro

No Brasil, a psiquiatra Nise da Silveira foi pioneira ao incorporar animais ao cuidado de pessoas com transtornos psiquiátricos.

Em seu trabalho no então Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Rio de Janeiro, Nise valorizava os vínculos afetivos estabelecidos entre pacientes e animais — especialmente cães e gatos — dentro de uma abordagem que buscava formas mais humanas de cuidado.

Os animais eram considerados por ela importantes para o estabelecimento de relações afetivas e para o desenvolvimento do senso de responsabilidade dos pacientes.

Nise se tornaria uma das principais referências brasileiras na história da relação entre animais e saúde mental.

Anos 1960

O início da pesquisa moderna

Nos Estados Unidos, o psiquiatra infantil Boris Levinson começou a publicar observações sobre a participação de seu cão Jingles durante sessões com crianças.

Seu trabalho chamou atenção para a possibilidade de que a presença de um animal pudesse facilitar a comunicação e a relação terapêutica e se tornou um dos principais marcos da pesquisa moderna na área.

Posteriormente, os psiquiatras Samuel e Elizabeth Corson também desenvolveram estudos sobre a interação entre pacientes e cães em ambientes psiquiátricos.

A partir desse período, a relação entre pessoas e animais começa progressivamente a deixar de ser apenas uma observação da prática para se tornar também objeto de investigação científica.

1976

Nasce a Therapy Dogs International

A enfermeira Elaine Smith funda nos Estados Unidos a Therapy Dogs International (TDI), organização voluntária dedicada a fornecer equipes formadas por cães e seus condutores para visitas a instituições.

A organização permanece em atividade até hoje.

1977

A criação da Delta Foundation

Um grupo formado por profissionais das áreas de saúde humana e animal cria nos Estados Unidos a Delta Foundation.

A organização surge a partir do interesse crescente em compreender cientificamente a relação entre seres humanos e animais e se tornaria uma das grandes referências internacionais no desenvolvimento do campo.

Entre seus pioneiros estavam profissionais como Leo Bustad, Michael McCulloch e William McCulloch, além de outros pesquisadores e médicos veterinários.

1979-1980

A pesquisa se organiza também no Reino Unido

Em 1979, profissionais reunidos na Universidade de Dundee, no Reino Unido, criaram um grupo dedicado ao estudo das interações entre seres humanos e animais, que posteriormente se tornaria a Society for Companion Animal Studies (SCAS).

Já em 1980, o grupo realizou em Londres um simpósio que reuniu cerca de 200 participantes de dez países, demonstrando que o interesse científico pela relação humano-animal começava a ganhar dimensão internacional.

Anos 1980

Pesquisa e expansão internacional

Durante a década de 1980, cresce a produção científica dedicada a investigar as relações entre seres humanos e animais e seus possíveis efeitos sobre saúde e bem-estar.

O campo ganha espaço no Reino Unido, Estados Unidos e diferentes países da Europa Continental, com novas organizações, congressos, publicações e programas.

Em 1981, a Delta Foundation passa a se chamar Delta Society, refletindo a expansão do grupo original de pesquisadores e profissionais das áreas de saúde humana e animal.

Em 1983, acontece em Viena um congresso internacional sobre a relação humano-animal, com participação de pesquisadores de diferentes países. No mesmo período, membros da SCAS participam da criação de programas como o britânico Pets as Therapy

Anos 1990

Padronização e profissionalização

Com o crescimento da área, aumenta também a necessidade de diferenciar práticas, estabelecer critérios e criar uma linguagem comum entre pesquisadores, profissionais e organizações.

A Delta Society ganha importância internacional no desenvolvimento de programas de formação e práticas padronizadas. Entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, desenvolve o programa Pet Partners, considerado pela própria organização seu primeiro programa abrangente e padronizado de treinamento para atividades e terapias assistidas por animais.

Nesse contexto, conceitos como Atividade Assistida por Animais (AAA) e Terapia Assistida por Animais (TAA) passam a ser mais claramente diferenciados e difundidos.

No Brasil, também crescem iniciativas, centros de atendimento e pesquisas relacionados às práticas assistidas por animais.

A partir dos anos 2000

Um campo cada vez mais internacional

As práticas assistidas por animais continuam se expandindo, com iniciativas em Espanha, Portugal, outros países da América Latina e diferentes estados brasileiros.

A produção científica aumenta e novas organizações e redes internacionais passam a contribuir para o estudo da interação humano-animal, a formação de profissionais e voluntários e a construção de critérios para uma atuação segura e responsável.

O termo Intervenções Assistidas por Animais (IAA) ganha espaço como uma denominação abrangente para diferentes modalidades de atuação envolvendo animais.

Ao mesmo tempo, temas como formação, avaliação, protocolos, ética e bem-estar animal passam a ocupar um espaço cada vez maior nas discussões da área.

2012

Delta Society torna-se Pet Partners

Em 2012, a Delta Society muda oficialmente seu nome para Pet Partners, buscando comunicar de maneira mais clara sua missão.

A organização mantém e amplia o programa desenvolvido nas décadas anteriores, voltado à formação e avaliação de equipes que atuam com animais em diferentes contextos.

Ao longo de sua história como Delta Foundation, Delta Society e Pet Partners, a organização teve forte influência na estruturação e disseminação internacional das práticas assistidas por animais.

2014

A IAHAIO estabelece uma referência internacional

Após criar uma força-tarefa internacional em 2013, a International Association of Human-Animal Interaction Organizations (IAHAIO) publica, em 2014, seu primeiro White Paper sobre Intervenções Assistidas por Animais.

O documento estabelece definições para a área e diretrizes de boas práticas, com atenção especial à saúde e ao bem-estar dos animais envolvidos.

As recomendações foram desenvolvidas por especialistas de diferentes países e aprovadas pelas organizações membros da IAHAIO, tornando o documento uma importante referência internacional.

2024

De Intervenções a Serviços Assistidos por Animais

A evolução do campo traz uma nova atualização de terminologia. Após um projeto internacional de dois anos, a IAHAIO e a Animal Assisted Services International, em colaboração com especialistas de diferentes países, propõem Animal-Assisted Services (AAS) como o termo abrangente para a área.

A nova estrutura organiza os serviços em três grandes categorias:

Treatment — Tratamento
Education — Educação
Support Programs — Programas de Suporte

A mudança busca criar maior clareza e uniformidade internacional entre pesquisadores, profissionais, organizações e usuários dos serviços. A Patas Therapeutas adota em português a nomenclatura Serviços Assistidos por Animais (SAA).

Uma história que continua sendo construída

O que começou com observações sobre a relação entre pessoas e animais atravessou séculos e se transformou em um campo que hoje reúne pesquisa científica, organizações internacionais, profissionais de diferentes áreas, protocolos e diretrizes de bem-estar humano e animal.

E essa história continua em evolução.

Novas pesquisas, mudanças nas terminologias e avanços na compreensão das necessidades dos animais seguem transformando a maneira como os Serviços Assistidos por Animais são estudados e realizados.

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